Um mar de incoerências

4:47 da madrugada, lavando louça baixinho para não acordar o resto da casa e pensando na incoerência que seria eu tirar plástico da praia enquanto ainda consumo plástico na minha casa. E enquanto ensaboava os pratos totalmente dispersa, o pensamento descambou para pensar em toda a lista infinita de incoerências entre os meus achismos atuais e o que eu ando fazendo no dia a dia.

Eu valorizo o ato de envelhecer como uma coisa bonita e sempre falo do quanto a gente deveria aprender mais com quem já viveu tanta coisa a mais que a gente.

Porém, não visito a minha avó paterna há tempos. Talvez muito porque eu tenho andado seriamente complexada com o fato de que eu — se a vida for longa — ficarei velha, e eu tenho muito medo de envelhecer e do que para mim parece a impossibilidade de refazer novos caminhos na vida. Talvez também seja porque ela tem Alzheimer e os traços da doença se mostram cada vez mais avançados. Junto à minha outra avó que descobriu ter Alzheimer recentemente, com sintomas ainda imperceptíveis, eu não consigo parar de pensar que o meu futuro também é esquecer. Logo eu, que curso história, que me acho uma máquina de processar informação, logo eu que vivo pra lembrar. Logo elas que guardavam tanta coisa que nunca pensaram que iam esquecer também.

Eu tenho a luta pela fim da opressão de todas as mulheres como um pilar muito central da minha vida, e norteio grande parte dos meus planos pensando formas de ajudar mulheres, acolher mulheres e zelar por mulheres. E ajudar mulheres a conquistarem uma vida com mais autonomia, segurança, saúde e — porque não?- felicidade.

Entretanto, frequentemente, como hoje, não consigo aplicar meus ideias à minha mãe, que é a mulher em cuja vida eu mais consigo enxergar a crueldade do patriarcado ao longo dos seus quarenta e tantos anos. Minhas dores pessoais em relação à ela e à criação que eu tive, que na realidade são muito mais conjunturais do que meras relações individuais, acabam falando mais alto e eu sinto querer que ela se sinta mal. Mesmo sabendo que ela já sente, sempre sentiu.

Isso também é incoerente quanto ao meu pensamento de que todos os seres humanos merecem ser felizes, e que mais sofrimento gerado no mundo não diminui dores e problemas já existentes.

Eu acho muito difícil aplicar isso se tratando de pessoas que protagonizaram momentos dolorosos da minha vida, seja as que eu não vejo nem ouço falar há anos, ou pessoas tão presentes -e tão amadas- quanto mamãe.

Eu acho que todos devem poder contar com redes de apoio nos seus dias. Todos precisam de um espaço para falar sobre suas dificuldades, independente de qual seja. Principalmente as pessoas que tem poucos “ouvidos” com quem contar.

Entretanto, não respondo minha avó há semanas porque seus áudios são grandes demais, e ela reclama de coisas demais da sua velhice, e são coisas demais que ela mesma causou para si. Como se eu também não reclamasse demais, e como se eu também não tivesse gerado a grande maioria das coisas sobre as quais eu reclamo. Assim como, não todo mundo, mas, muita gente.

Eu me acho muito anti hierarquias e desprezo posturas de superioridade, principalmente intelectualmente. Acho um grande absurdo quando as pessoas acham que sabem mais do que as outras e agem de forma arrogante e desrespeitosa.

Uma das minhas maiores e mais detestáveis surpresas desse ano foi justamente descobrir o quanto eu tenho uma postura de sabe-tudo e tento convencer as pessoas ao meu redor obstinadamente. Descobri que a cada teoria que eu leio e que me identifico, que faz muito sentido ou me apresenta um novo olhar sobre a vida — ou tudo isso junto-, ela se torna a verdade mais absoluta e correta da face da Terra, e dela eu me torno uma advogada fiel. E advogo para todo mundo e acho uma loucura as pessoas não verem o que eu vejo, como eu vejo, mesmo que eu visse igualzinho a eles até ontem. Observar esse meu comportamento tem me ensinado e colocado para pensar sobre muita coisa da vida.

Eu procuro desconstruir as minhas práticas e pensamentos associados à indústria e aos padrões de beleza e de feminilidade. Parei de me depilar, parei de usar maquiagem, abandonei os cosméticos, cortei o consumismo por roupas. Não posso dizer que isso não surtiu efeitos: eles vieram, acompanhados também por muito desconforto e situações sociais — e até minhas comigo mesma, confesso- desagradáveis, para dizer o mínimo.

Porém, vejo a cada dia o quanto a minha problematização em torno da aceitação social que depende desse esforço hercúleo é vizinha de um desejo latente de querer ter aquela mesma aprovação e admiração da minha imagem que eu buscava antes. Mas agora, eu quero essa admiração desse jeitinho que eu tô, o que por si é algo impossível de acontecer (ou não, sabe-se lá o que os ventos das lutas das mulheres trarão?). Eu tento mudar a prática para ver se muda a mente, mas mudar a mente, surpreendentemente, parece ainda mais difícil. Não é acordar, decidir e fazer. É construção. E construção demanda tempo, e esforço, e é cansativo pra caramba.

Eu vivo conjecturando uma vida onde minha energia, tempo e dinheiro se direcionem para as coisas que eu acredito e que fazem sentido, principalmente no que diz respeito à trabalho. Mas me vejo no momento no auge de uma sobrecarga em que nenhuma das atividades que eu faço, e que são muitas, tem muito sentido. Faço o que faço para me formar, faço o que faço para pagar as contas. E digo que é só até o ano que vem e eu me formo, e acaba, e eu migro para uma vida com mais sentido. Mas viver contando tanto assim com o futuro com um presente que me engole é desanimador, porque o futuro vem, mas muitas vezes não parece que tá vindo. Porque eu nem sei se o sentido vai vir com ele. E se eu vou com o sentido. E se eu arregar no fim de tudo e decidir viver uma vidinha mais conformada porque sempre parece distante demais o futuro que traz uma vida diferente disso?

Eu tô entrando no universo da ecologia, do vegetarianismo e de um monte de coisa mais. E tô achando lindo, e importante, e incrível, e como que eu não pensava assim antes. E quero mudar tudo meu e do mundo pra ontem. E vou visitar os meus pais ou viajar com os meus amigos e arranjo minhas desculpas para me liberar para comer bicho só por alguns dias. Ou adiar a coleta seletiva do lixo para o próximo mês. Ou deixar para pensar mais pra frente como cortar todos os plásticos da rotina, que agora eu lembro que foi a questão que começou esse pensamento todo há uma hora atrás, na hora da louça.

Eu conheci a não-monogamia e todo o universo que ela contempla: mergulhei fundo nas discussões sobre o amor romântico, sobre a monogâmica enquanto opressão feminina historicamente, sobre projeções, dependências emocionais, e mais um cado de coisa que na época foi como olhar no buraco da fechadura da via láctea. Todavia, ainda me pego quase diariamente desejando um dia alcançar aqueles mesmos relacionamentos monogâmicos, românticos e idealizados “no fim de tudo”, mesmo racionalmente os enxergando como tão problemáticos. Ainda tenho medo de ficar “sozinha”, entre muitas aspas, no decorrer da minha vida, mesmo só tendo 22 anos. Ainda sinto medo de acabar me sentindo incompleta na vida por não escolher a maternidade, mesmo que isso esteja muito longe de ser uma decisão em pauta na minha vida atual. Ainda romantizo relações sexo-afetivas muito problemáticas do meu passado, e partes de mim ainda fantasiam que um dia velhos amores retornem trazendo os finais felizes que não existiram.

Vou parar por aqui porque eu sou muito mais incoerente do que tinha em mente que era quando comecei a escrever esse texto, e porque sinto que ainda tem incoerência demais para citar nessa lista e que passaria o resto da semana adicionando mais itens.

Sou um mar de incoerências porque em tudo, ou algo bem perto de tudo, eu falo A e penso Z. Ou penso A e faço Z. Ou penso, falo e faço um abecedário completo e diferente a cada dia, porque parece que as mudanças do que faz sentido para mim e do que me rege hoje em dia são muito mais rápidas do que eu consigo acompanhar. E talvez incoerência seja bastante isso: o tempo de tudo dentro e fora da gente conseguir se acompanhar, conseguir entrar nos eixos. E aí está o grande dilema: com esse tanto de transformações diárias, como é que algo dentro da gente conseguiria, um dia, finalmente estar alinhado e coerente?

Pode ser que seja bem possível, pode ser que eu não mude mais tanto de ideia, ou faça isso mais devagar no futuro, que o tempo interno corra mais devagar. Pode ser que algumas certezas assentem mais do que agora, e que haja mais ímpeto de ação pro que ainda não tem, e pro que não der, mais espaço de aceitação e calma.

No fim de tudo, a incoerência continua sendo muito angustiante. Ela faz parecer que não há tanta verdade assim na gente — tanto para nós mesmos, quanto para as pessoas ao nosso redor, quanto para o mundo. E com ele, para tudo o que esperava mais de mim e hoje não deu, e que amanhã talvez não dê também.

Incoerência toca na nossa falibilidade. Ela angustia porque traz a ideia de que a gente falha em fazer alguma coisa, em personificar o que a gente acha bom e acredita. É a desilusão de achar que está chegando num destino e se enxergar indo na direção contrária. É também a autocobrança, o imediatismo, a impossibilidade de errar e o desejo eterno de controlar racionalmente todas as formas que a nossa vida toma nessa vida.

Olhando por um outro lado, incoerência pode ser a marca de que a gente tá vivendo, e vivendo muito, e se deixando tocar muito pelo que a gente encontra no trajeto, e mudando muito de ideia. Incoerência lembra que nada traz tanta certeza assim, e que as ideias e práticas ultrapassadas que surgem em se fazer presentes já foram certezas muito grandes também.

Num dos pontos que eu tomo como principais, incoerência também se relaciona com o fato de que a nossa socialização é profunda, por vezes, violenta, e enraizada, e que é difícil e um trabalho constante traçar novos caminhos. A busca pela coerência é, mais do que um estágio final onde um dia chegaremos e permaneceremos para sempre, plenos, perfeitos e convictos, a linha do horizonte que move a gente a caminhar.

Caminhar rumo a uma vida que nunca será de fato coerente. Porém, que amanhã já vai ser mais coerente do que foi hoje. E isso um dia vai ser grande coisa. Talvez hoje mesmo já seja.

Também tem calmaria nesse mar de incoerências.

escrevendo nas madrugadas minhas rotas de fuga / sem nenhum intuito de fazer boa poesia

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