ode à dor que me pariu

A divindade hindu Kali, deusa da destruição e do renascimento. Imagem: Pinterest

um furacão me pariu
com dores e destruição
seu rastro se fez saber
até o outro lado do mundo
e quem viu e ouviu
achou que a terra ia rachar
porque os lamentos e gemidos
eram altos demais

foram eras, milênios
parindo a si mesma
e se colocando no mundo
para sangrar e morrer
e depois parir novamente
com dores, prantos e ranger de dentes

cada vez que feriram minha carne
cada vez que me penetraram
com as colunas do templo de zeus
construídas com os ódios de mil homens
que traziam o ego do mundo todo
os ventos sopraram mais forte
os lamentos viraram fúria
e agora dilaceravam carnes e ossos alheios

como um mar de aniquilação
todos os homens choraram
e eu me banhei nas suas lágrimas
oraram e pediram para o vento parar
mas os homens não conhecem essa palavra
seus próprios ouvidos não a escutam

entregaram suas sortes para deus
e deus entregou a sorte deles para mim
suas cabeças servidas numa bandeja de prata
uma a uma, eu tive que cortar
hoje eu quero colocar a mesa
chamei todas as minhas fúrias
para comerem comigo

a noite tinha três luas
meu banquete foi servido
senti suas carnes na minha boca
e mesmo mortos eles podiam gritar
na minha garganta os fiz calar

uma serpente chamada Dalila
subiu até o meu ouvido
falou que era hora de parir outra vez
encheram seu ventre na última noite, ela disse
não quero gerar o fruto desses homens maus, eu disse
mas todos os ventos já sopravam forte outra vez

vaguei por todos os desertos e mares
e vinte e dois anos depois nasceu o meu bebê
diferente dos outros — que nasceram mortos
era vermelha com a cor do meu sangue
e cheia de espinhos
porque veio a um mundo de horror

parecia uma planta mas tinha dentes
era bonita mas comia gente
a chamavam de devoradora de homens
mas plantas-mulheres carnívoras
só comem intrusos
só ferem invasores

chorei mil dias e mil noites
com lágrimas quentes
porque finalmente te pari
nunca te sonhei
mas o vento trouxe você até mim
as coisas velhas já passaram
mas tudo não se fez novo
você tem os meus espinhos,
você tem os meus dentes,
você sangra e faz sangrar
você é o doloroso fruto da minha história

um furacão te pariu
e nas suas raízes
reluziu um fogo que ia até o céu
eles nunca mais te alcançarão
você é a devoradora de homens agora

onde eu tinha feridas você fez crescer espinhos
onde me arrancaram a língua você criou dentes
agradeço a cada morte que trouxe você aqui
você fez minhas lágrimas virarem sangue
coloquei numa taça e bebi como se fosse vinho

seu fogo me queima e me cura
eu te cuido e tu me cuidas
as dores velhas já passaram,
e eis que eu me fiz lua nova

você é o bendito fruto da minha história

escrevendo nas madrugadas minhas rotas de fuga / sem nenhum intuito de fazer boa poesia

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