amor não é violência mas ninguém ali sabia

diz que eu sou excitante
cuida desse corpo errante
fala que eu sou o bastante
grita no auto falante
mesmo se delegante
enxerga esse meu semblante
me esforço para ser cativante
você sente meu olhar desejante
que corpo de fêmea mercante
logo sinto o seu ódio gritante
quando enfia o seu pau rasgante
te digo que é o bastante
você machuca e acha excitante
eu tento, mas a voz sai errante
nem parece que sou tão falante
sua violência é tão deselegante
onde está aquele cara cativante
não consigo mentir com esse semblante
quero matar essa angústia rasgante
você goza e seu nojo por mim é gritante
você trata mulheres como um mercante
você vai e deixa em mim tantas culpas
das noites que tentei ser mulher-desejante

Achei esse escrito num livro de tempos atrás que eu retomei a leitura. Na época, eu só sabia escrever sobre isso. Ou melhor, esses eram os sentimentos que mais urgiam para serem colocados para fora. Alguns meses depois, tanto mudou. A escrita me ajudou a começar a olhar para cicatrizes e, devagarzinho, começar a curá-las. Publiquei porque achei um registro válido e significativo. Mas hoje eu não quero mais escrever sobre isso: aqui não reina mais a marca da violência pela dor, mas pela cura e por toda a não-violência e amor dos meus dias de hoje. E eu não tinha me dado tanta conta disso assim até reencontrar essa poesia e ela parecer algo tão distante.

amor não é violência e ninguém ali sabia, mas agora eu sei.

agora amor não é mais violência, e eu também sei disso.

(brindemos os processos que de tão lentos e imperceptíveis um dia mudam tudo ao redor)

escrevendo nas madrugadas minhas rotas de fuga / sem nenhum intuito de fazer boa poesia

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