A caça eterna dos sentidos inexistentes

Reflexões sobre procrastinação, improdutividade e a responsabilidade sobre a ausência de sentido na vida

Joan Cornella http://joancornella.net/

Este não é mais um texto sobre os sofridos efeitos da quarentena, embora seja impossível começar sem falar sobre ela. Um verdadeiro ponto fora da curva no qual nos encontramos até hoje, não me recordo de outro período da vida com tantas imersões dentro da minha mente e reflexões sobre as minhas vidas passadas, presentes e futuras.

Eu faço bastante coisa, e apesar da ansiedade que sempre acompanhou os meus dias cheios, eu também sempre gostei de fazer muita coisa. A produtividade nunca foi fácil, mas é seguida de um prazer interno que hoje eu acho muito mais problemático e artificial do que achava antes. Não é natural sentir prazer por conseguir fazer muitas coisas — que geralmente foram delegadas a você, e não escolhidas por você — num curto intervalo de tempo. As coisas boas que queremos fazer não são feitas com pressa, não se contam as horas para terminar.

Apesar de fazer muita coisa, nos últimos dias fui acometida por mais uma série de dias procrastinadores e sem ânimo para as “tarefas importantes”. Hoje avaliei como é o ciclo perfeito da autossabotagem que eu pratico comigo mesma nos períodos mais atarefados e impróprios para isso. O quanto eu deliberadamente crio situações em que poderei me distanciar de todas as cobranças e tarefas pendentes, a ponto de ter que fazê-las no limite e sem mais escolha sobre elas. Sabendo que não vou fazer o meu melhor trabalho, pois trabalhos corridos de véspera nunca são os melhores trabalhos, mas ainda assim aspirando alguma genialidade que seria inata a mim.

Queria fazer trabalhos notáveis, e ser notável, com a condição especial de precisar fazer menos esforço do que o resto das pessoas para alcançar isso. E com a confiança injustificável de esperar que isso seja possível.

Esse seria mais um texto sobre sobrecarga, procrastinação e narcisismo, porém, ao invés de problematizar essa conduta, eu entendo porque ela acontece.

Ela acontece porque eu não vejo sentido em grande parte do que eu faço — e tenho que fazer — no meu dia a dia.

Muito se fala sobre a ausência de sentido com a qual tivemos contato na quarentena sobre as nossas atividades, mas me pergunto se havia um real sentido nas nossas atividades antes disso tudo, nos tempos usuais.

Hoje, não faz sentido para mim produzir conteúdos para a Academia e demais pesquisadores que, ao meu ver, nunca farão parte de mudanças significativas na sociedade. Não faz sentido demandar tanto tempo e energia para debates teóricos com pessoas muito confortáveis na vida e no mundo. Não faz sentido pisar tanto em ovos por tudo o que se constrói no meio acadêmico ser tão julgado — e não me refiro a críticas construtivas aqui.

Não faz sentido se esforçar tanto para a construção de uma carreira a longo prazo, para despender ainda mais horas e energia em atividades que eu não vejo sentido, por uma suposta segurança financeira e reconhecimento.

Minha fantasia de quarentena é fixa: me imagino mudando do Rio para Recife, para viver dias bons com pouquíssima grana fazendo os trabalhos que tiverem pra fazer. Alugar uma casinha, cuidar de horta, de bicho e de gente. Falar de trabalho com trabalhador, falar e fazer educação popular com todo mundo. Falar e fazer muita coisa boa com quem passar pelo meu caminho. E quando alguém me perguntasse o que eu faço, eu teria tanta coisa em mente que o trabalho que me pagam para fazer seria irrisório. Dessas coisas que surgem eventualmente depois de algumas horas de conversa, ou que nunca surgem, porque tem tanta coisa mais importante para se falar.

Minha fantasia dói quando eu acordo, abro o celular para checar as mensagens e emails importantes, e tomo o café da manhã de frente para o computador enquanto olho a lista com 27 pendências por fazer. Minha fantasia dói quando as tarefas parecem intermináveis e sem fim, não importando o esforço repetitivo que as acompanham. Porque atividades que não fazem sentido geralmente são assim: intermináveis, até que se diga o contrário.

O “erro” tá em muita coisa: no capitalismo acima de tudo e todos, na ideia de que produtividade é uma coisa legal, no pensamento de que nós não temos tempo a perder e por isso temos que fazer tudo e mais um pouco e emendar todas as etapas, na eterna insuficiência que nos faz precisar ser melhores e mais bem preparados para atender referenciais inatingíveis. E em mais 500 coisas.

Não acho que a ausência de sentido da vida se dá pela quarentena, acho que ela lembrou que a vida que a gente vive não faz sentido da maneira mais angustiante que pôde. Lembrou que os dias passam e que isso não é feito para ser melancólico, mas os nossos dias tornam isso desesperador. Porque sabemos que não vivemos, que o nosso tempo não é nosso, e nossa energia também não, e isso é coisa demais para lidar e aceitar. O que nos sobra no fim do dia ou da semana sempre é tão pouco. Ao mesmo tempo, os tempos atuais nos lembram das nossas escolhas que inferem na vida que vivemos. Nós que reclamamos temos apego demais a tudo que escraviza nosso tempo e energia, a ponto de pensarmos que qualquer alternativa a essa vida é insustentável, insegura ou mesmo impossível na nossa sociedade. Não admitimos que não queremos mudar o que tanto reclamamos. Esse texto é a prova perfeita da última frase: não sinto que vou sair dessa quarentena tendo encontrado sentido para as minhas atividades atuais, tampouco terei abdicado delas.

Mas tudo bem quanto a isso também.

Algumas mudanças pedem planejamento, porque não vivemos num mundo que compreende ou facilita o caminho para uma vida mais próxima das nossas utopias, principalmente se você conta com poucos privilégios sociais nessa encarnação atual. Porém, o planejamento não pode se tornar um sonho distante, e a angústia dos dias banais — produtivos ou não — não pode engolir nossos incômodos, não pode abafar o resto de toda a nossa vida. E esse resto é muita coisa.

Hoje, 00:37, acabei de tomar um café para fazer algumas tarefas pendentes. Me sinto sobrecarregada, porém, há dois dias eu não produzo e falto compromissos. Sei que o que eu e todo mundo chamamos de procrastinação é a minha mente dizendo que meus dias não estão certos, que a gente não foi feito pra render assim e que isso cansa. Sei que isso é também o meu corpo que não entende porque eu fico tanto tempo longe da natureza e sem me movimentar, sentada numa cadeira dentro de casa mexendo num computador. Dias “ruins” e/ou improdutivos são, tantas vezes, apenas desencontros da gente com o todo.

Hoje, não vai dar pra largar tudo de mão para fazer o que eu acho que importa e faz sentido. Não vai dar para procurar os meus muito sentidos dessa vida, descobertos e por descobrir. Não vai dar para fazer essa mudança geográfica — que a psicanálise explica e muito diante desse desencontro todo — acontecer e me desligar de todos os imperativos que me cercam aqui no Rio. Como se eles fossem exclusividade da minha vidinha no Rio, e não imperativos para qualquer um em qualquer lugar.

Ainda assim, não sei se são tempos de esperança ou não, mas dá para ser. Grande parte dos perrengues tem as datas de validade que nós colocamos para eles. Nem todo dia vai dar para escolher a vida que a gente queria viver, mas dá para escolher algo mais próximo disso, um caminho ou vários. A sobrecarga existe porque no sistema em que vivemos o esforço humano nunca será suficiente, e porque pessoas esgotadas são mais facilmente alienáveis. Elas nunca tem tempo, ou energia, ou os dois, para questionar o todo. A gente bem sabe que se acostuma até com o desconforto. A angústia da improdutividade existe porque acharam que havia pouca coisa para nos fazer sentir culpados. E afinal, quem é mais efetivo para nos fazer correr para o irreal do que nós mesmos?

Não quero mais essa vida de algoz. Não quero mais esses dias de matar o tempo com os imperativos desse mundo insano que a gente constrói e que nos constrói de volta ao mesmo tempo. Meus olhos cansaram das telas — e lá vem os óculos — , mas cansaram mais ainda do meu auto-engano. O irreal nunca vai fazer sentido. Viver a realidade passa por viver nossos dias com autonomia, com poder sobre o que é nosso, o que inclui principalmente o nosso tempo e a nossa energia: atributos únicos, individuais e irrecuperáveis para cada sujeito. Hoje pode não ser o dia de jogarmos fora todos os projetos de vida que não nos servem mais, mas amanhã pode ser. Enquanto isso, façamos o hoje da maneira mais humana que a gente conseguir fazer, e cuidemos de nos fortalecer para a rotina não nos deixar confortáveis demais com esse cotidiano. Todos os sentidos estão dispostos para quem passa a escolher os próprios caminhos.

escrevendo nas madrugadas minhas rotas de fuga / sem nenhum intuito de fazer boa poesia

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